segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mais comentários sobre a visita ao Calabar [2]

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No meu pais de origem, a Itália, não tem favelas, da forma como tem no Brasil. Porém, há muitos bairros de cunho popular.
Mas mesmo assim é raro encontrar algo parecido ao Calabar, um território modificado pela luta e a resistência dos moradores. 
“Antigamente, esta área era uma vala”  frisa o Professor Fernando Conceição, no decorrer da aula, contando a história da transformação do bairro através aarticulação dos jovens. 
O que chamou muito a minha atenção, nesta primeira visita do bairro foi que, a poucas centenas de metros do shopping Barra, o Calabar soube construir espaços comunitários como a escola aberta, o rádio, a biblioteca, o prédio Provida  devolvendo, na minha opinião, a comunidade e a todos os cidadãos, preciosas infraestruturas e um exemplo concreto de atuação de politicas publicas, sem a intervenção do Estado. Há um mês, as instalações policiais representam a tentativa do Estado de intervir na segurança do bairro e o que mais conta é que a associação dos moradores está apoiando esta iniciativa, mesmo tendo posições mais ou menos céticas no seu interior.
O que dará este conúbio, só o tempo nos dirá.


Viviana Preziotti






 Ir para um lugar onde não se tem uma infra-estrutura comparada aos bairros novos, como Pituba ou Graça, para mim não foi nenhuma novidade. No entanto, admito minha completa falta de conhecimento das conquistas do Calabar, que só ouvia da mídia como uma região onde "o sistema é bruto". Veio ainda mais para prejudicar a imagem do bairro a operação da polícia militar, que foi aplicada nos locais de maior conflito em Salvador e Feira de Santana e segue o modelo das UPP's do Rio de Janeiro e do Japão (Japão? Isso mesmo).
     A base comunitária da polícia não possui nem dois anos, no entanto o Calabar tem escola, rádio, biblioteca e padaria comunitárias. Deduz-se que, com certeza, não foi obra do governo do estado e muito menos dessa prefeitura desorganizada que nós temos.  A luta dos próprios moradores por essas conquistas transformou o Calabar do "pau-a-pique" em uma comunidade considerada modelo. A Escola Aberta do Calabar teve financiamento internacional e se baseia em uma estreutura socio-pedagógica diferente de outros centros educacionais, de acordo com a declaração da diretora pedagógica. Diante de uma nação inerte e apolitizada, mais pela desesperança do que pela passividade, descobrimos que os nossos heróis nacionais vão além de Dom Pedro I e Tiradentes. Esses já estão mortos, deixem-os pra lá. Os verdadeiros heróis estão aqui, no nosso dia-a-dia. São nossos vizinhos que tentam melhorar o lugar onde vivem mesmo ganhando pouco e dependendo de transportes-públicos, saúde e educação precários.São os que fazem protestos contra Belo-monte, greve por melhorias para o corpo docente, projetos para a melhora da sociedade sem precisar ganhar um tostão a mais. 
    Só uma coisa para finalizar. Ao chegarmos no PROVIDA, sede da base comunitária, já nos deparamos com dois jornalistas: um do Correio* e outro da TV Itapoan. Como vida de jornalista é corrida, não ficaram nem duas horas inteiras, procuraram todas as fontes necessárias, fizeram os melhores takes e foram embora. Me pergunto, com muita sinceridade: "O que eles foram fazer lá?". Eu, como estudante de jornalismo, estudei na faculdade sobre os critérios de noticiabilidade, ou seja, os fatores que legitimam o fato como uma notícia. No entanto, não encontrei nenhum que se aplicava ao momento. Seria a questão da imprevisibilidade, alunos de faculdade em um comunidade, como se nunca na história desse país grupos universitários fizeram projetos nessas regiões? Ao chegar em casa, chequei nos principais veículos soteropolitanos as notícias sobre o Calabar. Além das já conhecidas sobre a violência, algumas me sobressaíram a vista. Estavam lá, projetos sociais do bairro APÓS a implantação da base comunitária da polícia militar. Pressupõe que tais projetos começaram a existir na região devido a políticas públicas do governo, não pela conquista dos moradores. Por acaso isso é jabá do governo do estado? Só estando na rotina de produção para saber. O buraco é mais embaixo.


Maria Garcia




   

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