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O Calabar é algo que foge completamente da minha vivência. Admito que ate então, nunca tinha visto algo parecido “casa grande e senzala” vivendo muito próximos. O tempo em que estive no Calabar não permite que eu afirme que existe uma convivência pacifica entre a elite e a escoria social. Aparentemente são dois mundos distintos, os ricos e abastardos de um lado e os descamisados e desassistidos de outro. As políticas sociais que o Estado tenta ou implementam nas comunidades carentes é bem. Percebe-se que há falta de um tudo, segurança pública, saúde e políticas sociais. Recentemente com o advento da UPP no Calabar, procura-se resgatar uma dívida social que a muito tempo carecia nessa comunidade. Que a lacuna que a muito tempo esta aberta nesse bairro carente seja preenchida eficientemente."
Amanda Mira
Calabar, uma história de resistência
O Calabar é algo que foge completamente da minha vivência. Admito que ate então, nunca tinha visto algo parecido “casa grande e senzala” vivendo muito próximos. O tempo em que estive no Calabar não permite que eu afirme que existe uma convivência pacifica entre a elite e a escoria social. Aparentemente são dois mundos distintos, os ricos e abastardos de um lado e os descamisados e desassistidos de outro. As políticas sociais que o Estado tenta ou implementam nas comunidades carentes é bem. Percebe-se que há falta de um tudo, segurança pública, saúde e políticas sociais. Recentemente com o advento da UPP no Calabar, procura-se resgatar uma dívida social que a muito tempo carecia nessa comunidade. Que a lacuna que a muito tempo esta aberta nesse bairro carente seja preenchida eficientemente."
Amanda Mira
Calabar, uma história de resistência
Um dos aspectos mais importantes a se reconhecer na história do Brasil é que a moeda de troca da liberdade dos escravos foi o seu total abandono por parte do Estado, que se refletiu no confinamento dos seus descendentes em novos guetos, como é o caso de grande parte dos nossos bairros de periferia, e nesse contexto se insere o bairro do Calabar. Por muito tempo o Estado só se fez presente por intermédio de incursões policiais, muitas vezes violentas, como relatam os próprios moradores. A ausência do Estado contribuiu para o desenvolvimento de um “poder paralelo”, como é conhecido o crime organizado.
Situada numa área de forte especulação imobiliária, próxima a bairros de classe média alta, a comunidade do Calabar passa quase despercebida para quem transita pela Avenida Centenário e pelos bairros de São Lázaro, Jardim Apipema ou o Cemitário do Campo Santo. Ouvi muito sobre o bairro em jornais e TV's, quase sempre nas páginas policiais. Recentemente, a região virou notícia após a criação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora na Bahia.
O discurso que fudamenta a implantação da Unidade de Polícia Pacificadora, segundo seus gestores, veio como marco para possibilitar a presença do Estado no Calabar, como afirmou a própria Cap. Oliveira. Para ela, só é possível o Estado se afirmar perante o bairro depois de sua pacificação. A UPP conta com cerca de 120 policiais que receberam treinamento diferenciado para lidar com a localidade. É com orgulho que ela diz “há um mês não temos homicídios por aqui”.
Considerando que a disciplina Comunicação e Poder - ministrada por Fernando Conceição, ex morador do bairro do Calabar e grande ativista do movimento negro - tenta discutir sobre o conceito de poder e suas manifestações sociais, bem como o estudo dessas manifestações de poder no nosso espaço geográfico, em especial o espaço baiano, veio em boa hora a possibilidade de participar de uma aula aberta no primeiro bairro de Salvador a receber esse tipo de política de segurança pública.
O discurso dos diversos líderes comunitários presentes na aula deixou claro que diversas pessoas estão empenhadas em promover conjuntamente o desenvolvimento daquele lugar que foi abandonado pelo Estado faz muito tempo, e que hoje se torna palco e modelo de uma nova maneira de abordar o crime organizado. Além disso, há mais de trinta anos o bairro é marcado por uma organização interna entre seus membros, que objetiva lutar por melhorias na educação, saúde, infra-estrutura, e contra a especulação imobiliária que já tentou engolir o bairro, entre outras conquistas. Quem viveu na comunidade é muito privilegiado para pensar as políticas relacionadas ao bairro.
A Universidade, através da academia, por muito tempo ficou restrita a um espaço particular, elitista e burguês, contrariando seus próprios fundamentos. A relativa descrença que eu e mais algumas pessoas tinham sobre a ocupação da polícia atiçou ainda mais a curiosidade sobre a ação do Estado naquele lugar. O conjunto dessas constatações permitiu compreender que a efetividade dessa política estatal passa pela sua discussão constante com a comunidade, através dos seus principais representantes. A Universidade, por sua vez, pode e deve funcionar como importante mediadora dessas políticas.
Vano Lima
A visita da turma de Comunicação e Poder do semestre 20011.1 da Faculdade de Comunicação da UFBA, da qual faço parte, ao bairro do Calabar foi uma proveitosa e rica experiência sobre cidadania, mobilização política, consciência social, luta pelos direitos humanos e pela igualdade. Conhecer a história de organização e mobilização políticas dos moradores do bairro – iniciada na batalha para não serem expulsos da área pela especulação imobiliária, e continuada, hoje em dia, através da luta contra a violência urbana e o tráfico de drogas como o oponente principal – mostrou-me um outro caminho possível para a resolução, ou ao menos a amenização, dos gravíssimos problemas sociais brasileiros, que no Estado da Bahia são ainda mais agravados pelo descaso e corrupção dos seus governantes. Poder visualizar de perto a história dos moradores do Calabar pela conquista da cidadania plena mostrou-me que é possível vencer a exclusão social – calcada em nosso país, como todos sabemos, em simbólicos critérios culturais de “raça” – através da união, da ação conjunta dos habitantes, da valorização da educação (sobretudo nas fases iniciais), da busca de parceiros civis e internacionais (já que o Estado nacional lá se faz ausente), etc.
A experiência, enfim, de ir ao Calabar, ouvir os moradores mais antigos que participaram de toda essa história de luta, assistir a palestra da Capitã da PM acerca do treinamento especial e diferenciado que tiveram para agirem de modo diverso ao tradicional no Calabar, mostra a todos nós, cidadãos brasileiros e soteropolitanos, que é preciso a ação conjunta da população na busca pela resolução dos problemas, que é necessário fazer-se visível, sair do anonimato, insistir, lutar e cobrar do Estado Brasileiro que compense sua ausência e se faça presente. Contudo, a lição maior que certamente restará para mim dessa riquíssima experiência é a possibilidade de visualização de alternativas novas e diferentes para as periferias brasileiras. Muito ainda está por fazer naquela localidade de Salvador, mas a aula aberta do Calabar deu-nos uma lição sobre a realidade social nacional que, talvez, somente a leitura e muitos livros teóricos sobre o tema poderia igualmente fazê-lo.
Paulo Pereira
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